Analise do jogo Returnal



Unindo os melhores aspectos de seus projetos anteriores a um clima de horror psicológico e doses generosas de influência de Metroid Prime, a Housemarque criou uma experiência memorável, que tira proveito de todas as capacidades únicas do PlayStation 5 e amplia os horizontes do estilo ‘roguelike.’



Returnal segue a perspectiva da exploradora espacial Selene, que cai na superfície do planeta alienígena Atropos após um acidente em sua nave e acaba ficando presa em um loop temporal. Logo após iniciar sua aventura, a heroína começa a achar gravações em que ela mesma descreve situações que ainda não ocorreram. Quando morre, ela revive o acidente e é obrigada a explorar uma nova versão de Atropos.

Como se o caos temporal não bastasse, Selene também precisa lidar com hordas de bizarras criaturas alienígenas e com misteriosas visões de seu passado, que estranhamente parecem assombrá-la mais do que as dificuldades do presente.

A trama se desenvolve principalmente através de esporádicos trechos de exploração em primeira pessoa, durante os quais jogadores são expostos aos conturbados pensamentos de Selene. Apesar de não chegarem a assustar, as cenas inspiradas por P.T. são perturbadoras, e instigam a busca por mais pistas a respeito do que realmente está acontecendo naquele mundo.

A soma entre as visões de Selene, inimigos que pareceriam em casa no panteão de H.P. Lovecraft e a opressora atmosfera de Atropos resulta em uma experiência de ficção científica verdadeiramente envolvente – daquelas em que é impossível prever qual será o próximo desafio a aparecer.


Mas o que faz o jogador retornar vez após vez para Returnal não é a história.

Em linha com o legado da Housemarque, o game é daqueles em que o mero ato de controlar a protagonista é satisfatório. Os controles são precisos e intuitivos, de uma maneira que após poucas horas qualquer jogador se torna capaz de usar esquivas e saltos para costurar em segurança por entre os paredões de inimigos, projéteis e raios laser que tomam conta da tela durante as cenas mais intensas de combate.

Em sua essência, o jogo deve muito a títulos anteriores do estúdio, como Resogun e Nex Machina. Apesar de Returnal apresentar a ação sob uma perspectiva completamente diferente, ele ainda tem o DNA de um ‘bullet hell’ de navinha. Você até pode utilizar rochas e outros obstáculos no cenário para se proteger da tempestade de tiros, mas os jogadores que realmente se dão bem são aqueles que conseguem lidar com a pressão e partem para cima, desviando das ameaças uma por uma ao mesmo tempo que contra-atacam.

Também como em Resogun, os trechos mais intensos de gameplay de Returnal são extremamente intimidadores de assistir em vídeo. A quantidade de inimigos e projéteis a cada batalha nos biomas finais se torna obscena. Com o controle na mão, porém, é possível lidar com tudo isso com tranquilidade – prova de quão bem trabalhadas são as mecânicas.

Ao final de sua jornada, Selene deve ser capaz de atravessar cenários enormes em instantes, utilizando ganchos para se prender a plataformas distantes e saltando por cima de desfiladeiros ao mesmo tempo em que lentamente dá cabo de todas as ameaças ao redor. A ação flui tão bem que parece uma dança.


Por utilizar uma estrutura de roguelike, Returnal permite que jogadores sintam de uma maneira palpável o progresso de seu nível de habilidade no controle: após algumas mortes, você logo percebe que os inimigos que causavam dores de cabeça nas primeiras áreas da jornada rapidamente se tornam meras distrações.

Mas o caminho até o ‘final’ de Returnal é tortuoso e punitivo, em grande parte por causa das batalhas contra chefes. São enfrentamentos longos e que testam não apenas as habilidades do jogador, como também sua paciência – um pesadelo para quem se afoba com facilidade. Felizmente, após serem derrotados uma vez, os chefões de cada bioma se tornam opcionais em incursões subsequentes.

As mortes inevitavelmente vêm, e com elas, a perda dos itens consumíveis e das armas obtidas em cada incursão. Como em Hades, porém, Returnal é um daqueles roguelikes em que certos elementos do progresso da heroína são permanentes. Selene consegue carregar algumas habilidades e melhorias de atributos para além da morte, de maneira que até mesmo tentativas fracassadas de vencer o jogo representam pequenos passos rumo à eventual vitória.


Além de melhorias permanentes como o gancho, a habilidade de ativar teletransportes e uma espada para ataques de curto alcance, Selene também tem a seu dispor um diverso arsenal de armas, que inclui pistolas, espingardas e metralhadoras, mas também opções mais esotéricas como lançadores de explosivos e canhões de repetição.

Cada novo armamento encontrado no caminho tem uma lista própria de atributos bônus que são internalizados por Selene após certo tempo de uso, incentivando a troca constante de armas para que tais benefícios acumulem.

A protagonista também pode usufruir de itens consumíveis como escudos portáteis, kits de primeiros socorros e outros, assim como de parasitas que trazem benefícios e desvantagens em um único pacote. Certos contêineres e itens ‘amaldiçoados’ também estão disponíveis: quando ativados, eles causam alguma avaria no equipamento de Selene – como distorções no mapa ou uma redução no atributo de resistência física -, que precisa cumprir missões específicas para neutralizar os efeitos negativos.

Por conta da variedade de itens e armas encontradas pelo caminho, não é raro que incursões consecutivas pareçam experiências completamente distintas.

Mas a diversidade de opções também traz à tona o maior problema de Returnal: é preciso parar para ler as descrições dos itens com atenção antes de coletá-los, sob o risco de cometer erros que podem custar sua vida. Em um jogo com um ritmo menos acelerado, isso não seria um problema – mas, aqui, certamente é, principalmente pela maneira como certas batalhas longas incentivam você a trocar de arma e coletar itens em meio à ação. Identidades visuais mais claras para determinados itens e artefatos aliviariam o problema sem grandes perdas.


Por mais punitivo que o game seja, jogar Returnal é um deleite – e o hardware do PlayStation 5 é um dos grandes responsáveis pelo sucesso da experiência.

Os ambientes diversos de Atropos são lindos e complexos, e estão em constante movimento. Rochas caem pelas encostas após presenciarem uma cena de combate, e a vegetação do planeta se movimenta de maneira alienígena, quase como se tivesse um propósito. Tudo isso é apresentado em uma resolução 4K com efeitos de ray-tracing a 60 quadros por segundo constantes.

Morreu? Em uma questão de meros segundos você está de volta à ação, já que o jogo não tem telas de carregamento.

O maior destaque na parte técnica, porém, fica a cargo do uso da vibração do DualSense: você consegue até mesmo sentir os pingos individuais de chuva caindo sobre o corpo de Selene na área inicial da aventura. Todas as ações realizadas pela heroína na tela têm uma resposta tátil satisfatória no controle.

Para ativar os disparos alternativos de cada arma – que funcionam quase como ‘ataques especiais’, por seu poder de fogo aumentado – o jogador deve pressionar o botão L2 mais fundo do que o normal. É um uso inteligente e versátil dos gatilhos especiais do DualSense.


Imitando o que a própria Housemarque fez para o PlayStation 4 com Resogun, Returnal é o primeiro jogo original imperdível do PlayStation 5. Além de ser desafiador e não ter vergonha disso – o jogo até começa com um aviso apontando que ele não está ali para brincadeira –, ele ainda serve como uma impressionante demonstração técnica daquilo que só a nova geração de sistemas pode oferecer.

Returnal está inteiro em português do Brasil, incluindo a dublagem.




9.0

Nota Recebida.



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