Hellblade: Senua's Sacrifice - Bem-vindo ao mundo dos Triple-I.



Hellblade: Senua's Sacrifice está finalmente disponível e existem vários motivos para estarmos interessados neste jogo. Por um lado, é o novo título da Ninja Theory, que trabalhou com a Sony em Heavenly Sword, com a Bandai Namco em Enslaved, e com a Capcom no controverso DmC: Devil May Cry para a Capcom. Por outro lado, é o primeiro jogo aclamado como "AAA independente". Nascido num estúdio habituado a grandes orçamentos e a grandes produções, Hellblade é um jogo que procura manter valores de produção reservados aos grandes blockbusters, apesar de na verdade ser um indie. Poderia ser descrito como um dos poucos "Triple-I" que estão a surgir e a verdade é que desde logo revelou ser altamente curioso descobrir o que este estúdio Inglês poderia fazer a trabalhar para si mesmo, sem prestar satisfações a outros. Numa era em que a indústria está cada vez mais focada nos grandes blockbusters mantidos meses a fio através de transacções, começam a surgir questões sobre o modelo tradicional de jogos para um jogador.

Desde a oportunidade de conversar com a Ninja Theory em 2015 sobre Hellblade e de quem é Senua, que fiquei com a clara sensação que este é um ambicioso jogo de um estúdio que foi capaz de transmitir o seu ADN ao longo das suas poucas produções. A Ninja Theory desde logo demonstrou que procura quebrar o padrão na indústria, o desejo de criar um AAA por um estúdio independente, mas sem a momento algum prescindir dos seus valores. Os valores que apaixonam este estúdio e o incentiva a produzir novos videojogos. Na minha mente, isto significa um jogo com visuais de boa qualidade, protagonistas fortes que se tornam no centro da narrativa, e mecânicas de jogo que se dividem em duas categorias: as que falham e as que vencem, mas sempre com a intenção de procurar algo diferente.

De uma forma resumida, Hellblade poderia ser descrito assim: um jogo com visuais arrebatadores (que servem a natureza específica desta personagem), uma performance incrível da sua protagonista que é o centro de toda a narrativa, combinado com mecânicas que, apesar de inicialmente divertidas, correm o risco de se tornarem repetitivas a médio prazo. No entanto, existe mais em Hellblade. Há uma excelente experiência para um jogador, focado na sua personagem principal e que combina de forma excelente a manipulação dos visuais devido às suas especificidades.

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"A Ninja Theory aposta na sua veia artística e na narrativa, mesmo que o gameplay sofra em prol desses valores."

A Ninja Theory constrói os seus jogos a partir de três alicerces: os combates desafiantes, histórias e personagens fortes, e ainda uma visão artística singular. Estas são as bases de Hellblade e todas elas trabalham em conjunto para tentar engrandecer a história de Senua, especialmente nesta jornada de sacrifício. Hellblade coloca o protagonismo em Senua, uma guerreira num mundo medieval centrado nas mitologias Celtas e Nórdicas. Senua não é uma mulher normal, ela sofre com perturbações mentais que se manifestam através de vozes na sua cabeça e da alteração radical do mundo real. A questão é mesmo o que é real, pois se Senua está a ver ou a sentir alguma coisa, será que se torna real? Com a ajuda do Unreal Engine 4, a Ninja Theory molda a componente visual para servir a narrativa e o efeito pode ser surpreendente.

Hellblade coloca todo o seu foco em Senua, nas constantes batalhas com a sua própria mente, com os enganos que esta lhe prega, como afecta a sua percepção do mundo e numa narrativa forte. Senua terá de viajar até ao submundo numa tentativa de ressuscitar o seu amado, a única pessoa que alguma vez a tratou como uma pessoa normal, mas nada será simples. Num mundo mergulhado na mitologia nórdica, existem deuses tão temíveis quanto as partidas que a mente de Senua lhe prega. Este é provavelmente o maior valor de Hellblade e onde o jogo vos agarrará. A prestação de Melina Juergens como Senua, aliada ao poderoso Unreal Engine 4, vão deixar-te enfeitiçado e totalmente rendido. No entanto, a Ninja Thoery foi mais longe. Neste bailado sincronizado entre visuais e narrativa, existem momentos que prometem ficar contigo.

A forma como tenta combinar elementos reais com fantasia é provavelmente um dos melhores feitos de Hellblade, parte da engenhosa criatividade artística que o estúdio imprime aos seus trabalhos. Nada no mundo físico é constante, seja devido à mente de Senua ou ao clima. Num momento poderá brilhar um lindo sol no imenso céu azul, para no seguinte surgirem nuvens escuras e surgir a chuva. No norte o clima é menos agradável e isso até é normal. No entanto, as surpresa chegam quando o real e a ilusão se cruzam, quando descobres que vês o mundo da perspectiva de Senua, através da sua interpretação e de como assimila o que se passa. Podes contar com mudanças abruptas nas tonalidades, na iluminação, e até em transformações completas do mundo ao redor dela. Está tudo relacionado com a luta na sua mente, com a escuridão que a ameaça, mas também com as vozes que a guiam.

Nos momentos em que perdes o controlo e assistes a uma envolvente actriz virtual a revelar mais e mais de Senua, ficarás rendido à sua luta, ao seu sacrifício e sentirás vontade de desvendar mais da narrativa. Para descobrires até onde Senua irá para salvar a alma do seu amado, até ao submundo governado por Hela, terás uma jornada que dura entre 6 a 7 horas, durante as quais terás um gameplay dividido em 3 partes: quebra-cabeças, combates e o que podemos chamar de momentos de narrativa.

Estes momentos de narrativa são os momentos em que percorres o mundo linear de Hellblade com controlo relativamente limitado. Tens de escutar as palavras de Senua e explorar os locais quando é possível. Na grande maioria do tempo tens de seguir pelo que poderia ser descrito como um corredor, mesmo que existam umas escadas pelo meio, é uma sensação de controlo altamente limitado. Em vários pontos do mundo vais encontrar portas que exigem a exploração dos locais em redor para encontrar as runas nela inscritas. Tens de procurar pelos cenários pontos em que possas fixar o olhar de Senua e encontrar algo semelhante a essa runa. São quebra-cabeças que se tornam interessantes, especialmente porque se tornam cada vez mais difíceis, e se encaixam em toda a narrativa. É outra das facetas de Hellblade.















"Os quebra-cabeças deixam-nos com vontade de mais, os combates não deixam saudades."

Hellblade é precisamente isso, é a exploração da forma como a quebrada e frágil mente de Senua assimila o mundo. Vários dos quebra-cabeças recorrem a imagens dos cenários e ao "jogo" da perspectiva para transmitir de forma interactiva mais do conflito e dilemas da protagonista. Existem vários momentos em que a Ninja Theory triunfa em pleno e expressa bem o seu intuito, noutros nem tanto. Os quebra-cabeças são dos melhores momentos de Hellblade, especialmente os mais abrangentes que exigem um pouco mais de ti, seja na forma como exploras o local onde os encontras ou na sua magnitude e como aproveitam a perspectiva de Senua sobre o mundo. Um exemplo são os momentos em que tens portais em que se olhares por eles o mundo abre novos caminhos de exploração, enquanto olhar ao lado deles, mantém o mundo inalterado. Será que isso é mesmo real ou será que é a mente de Senua que está a brincar com a sua perspectiva?

O terceiro elemento de Hellblade são os combates. Momentos que inicialmente parecem interessantes e até fazem lembrar For Honor da Ubisoft (cada adversário é como um boss numa luta em que é colocado um lock-on no oponente) mas que rapidamente se tornam enfadonhos. Tal como tudo em Hellblade, os combates são glorificados pela componente visual e nem percebes por que razão estás a gostar. Serão os visuais? O dilema de Senua? A banda sonora empolgante? Ou será o sistema de combate? É mesmo a primeira opção. O inimigo surge, a mira fixa-se automaticamente nele o ritmo lento de combate procura promover intensidade e relembrar que Senua é uma mera humana no meio de um jogo de deuses.

Ataca o adversário, desvia-te dos golpes dele, pontapeia-o se tiver um escudo para quebrar a sua defesa, alterna entre os dois ataques diferentes, enche a barra de Foco e despoleta essa habilidade (que torna o tempo à volta de Senua mais lento e te permite atacar à vontade). Agora repete tudo até os adversários estarem todos despachados. Ao invés do tom frenético de um hack and slash, a Ninja Thoery optou por um tom mais pessoal e pausado, o que não teria qualquer problema, não fosse a elevada dose de repetição. Quanto mais avanças, maior o número de inimigos que tens de derrotar só porque sim, perto do final até se torna demasiado. As variações são poucas e o sistema de combate não enverga uma profundidade que na verdade nunca almejou ter. O foco está na narrativa e em Senua, sim, mas não magoaria nada um sistema de combate mais desafiante. Bosses mais interessantes também não.

Hellblade: Senua's Sacrifice é um drama interactivo focado na narrativa e na exploração da mitologia Nórdica, através da veia artística da Ninja Theory. Combina momentos de controlo limitado com quebra-cabeças e ainda inclui combates. É o tipo de experiência que parece cada vez menos comum nos dias de hoje, mas que facilmente conquistará quem procura uma narrativa forte e intensa. O sistema de combate é simples mas competente, sofrendo rapidamente com desgaste e tornando-se repetitivo. Hellblade é um jogo que faz muita coisa bem, mas que infelizmente faz demasiadas concessões para expressar a sua personalidade em pleno. Não é um jogo para todos, mas será capaz de intrigar o seu público alvo.Como já referi, Hellblade consegue momentos visuais de puro luxo, cortesia do Unreal Engine 4, que permite a transformação em tempo real dos cenários, combinado com a visão artística da Ninja Theory. Será fácil sentir que Hellblade ameaça transformar-se numa experiência repetitiva, algo que a sua quase total linearidade não ajuda, mas os dilemas da personagem, a forma como se expressa e o elevado foco na mitologia Nórdica (especialmente para quem explora os locais limitados à procura de novas runas com mais histórias de outrora) e os diferentes locais, ganham sem dúvida uma maior imponência com o apoio do Unreal Engine 4. Apesar de alguns elementos dos cenários surgirem com um aspecto mais básico, Senua e os vários dos efeitos de iluminação são verdadeiramente espectaculares. A Ninja Theory soube usar muito bem o motor para explorar a sua visão artística nesta jornada de Senua.




8

Nota Recebida.



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